Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Violões de corda de aço, parte I: diferenças e características básicas

Escrito em 24/09/2013 | 10 comentários

Quem viu meu último texto, talvez esteja esperando pela solução do meu problema violístico. Quem não leu, ali embaixo sempre aparece um “leia o post anterior”. Mas, resumo da opera: sofri, mas vendi um violão e agora preciso de um novo violão de corda de aço. Mas qual tipo?

— Tem isso de “tipo”?

— Quanta frescura!

— Pô, pega o seu “violão normal” e mete corda de aço nele!

… Pois é. Antes de contar essa história é bom começar do começo. Senta aí que vem um texto longo. Eu recomendo pegar um café, que eu tenho uma tendência a ficar entre chato e didático demais quase o tempo todo…

Um Giannini Trovador de 70 ou 80, com um escudo "estilo folk" e um cordal no cavalete -- um tuning vintage comum, hehehe...

Um Giannini Trovador de 1980, com cordas de aço, escudo de “folk” e cordal — “tuning” brazuca comum na época…

Uma vez ouvi alguém dizer que os esquimós classificam a neve em pelo menos uns 4 tipos diferentes, enquanto pra nós é só “neve“. Do mesmo modo, imagino que para os norte-americanos e europeus em geral, “feijão” é só um tipo de semente que se compra em lata como milho e ervilha, enquanto aqui a gente tem feijão preto, feijão branco e mulatinho, e cada tipo tem vários modos de se preparar… Aos olhos do leigo tudo sempre parece mais simples do que é na realidade. No caso, o fato é que a escolha de materiais, tipos de construção e formatos de corpo influenciam diretamente no som e diferenciam não só um violão clássico (feito para cordas de nylon, como o meu já citado ou esse aí do lado) de um de cordas de aço, mas dos tipos dos violões de aço entre si. Nem vou entrar nos “tipos” hoje, deixa isso pro próximo post…

Aqui em terra brasilis, a gente não tem tradição de cordas de aço. Talvez até tenha de uso (que o diga Cartola), mas nunca teve de fabricação de violões pra isso: nosso know-how, naturalmente, vem da Europa — e a tradição lá é o dito violão clássico. Tanto é assim que, até a uns 15 anos atrás, o mais comum quando se via um “violão de corda de aço” brasileiro, ele era nada mais do que um clássico “adaptado” — quando muito, com um cordal para transferir a tensão das cordas de aço do tampo para o fundo do violão.

Cordal afirmador

Um cordal simples.

Eu não recomendo. Não vou entrar em detalhes sobre sonoridade, porque é questão de gosto; diria que um violão pensado pra ressoar como clássico não me dá a resposta que eu espero de um violão de aço, na minha humilde opinião. Mas não recomendo por um fato: um violão clássico não foi projetado para suportar a tensão das cordas de aço, com ou sem cordal — no popular, é 90% de chance de ferrar de vez com ele. Explico isso melhor abaixo, mas queria deixar o anúncio do apocalipse logo, hehe…

Pra entender melhor como funcionam e as diferenças entre eles, temos que ir até metade do século XIX, na Pensilvânia, EUA — onde se estabeleceu definitivamente C.F. Martin, um alemão fabricante de violões, que vinha para a América fugindo dos conflitos entre as guildas de marceneiros e fabricantes de violinos europeus. Martin é provavelmente o inventor do “X-bracing“, um sistema de reforço interno do tampo dos violões diferente do padrão europeu, chamado “fan bracing“. Apesar de ser menos “sensível” acusticamente, os outros fabricantes norte-americanos também passaram a adotar o primeiro por se tratar de um sistema mais simples e mais robusto. Em 1860 isso não era exatamente eficaz, pois o modelo europeu respondia acusticamente melhor e suportava perfeitamente a tensão das cordas de categute (um material feito de tripa de gado, usado até hoje como fio para sutura cirúrgica), que na época equipavam os instrumentos de corda.

O tampo de dois violões visto de dentro: X-bracing e fan bracing, respectivamente

O tampo de dois violões visto “por dentro”: X-bracing e fan bracing, respectivamente

Foi com a invenção das cordas de aço no começo do século XX que o modelo americano se mostrou útil: pense na diferença de força exercida entre 6 cordas de “couro elástico” para 6 cordas de metal esticadas até o limite; o que você acha que “puxa mais” o tampo do violão? O padrão europeu não suporta essa tensão — é por isso que os violões construídos como clássicos (como os brazucas-padrão DiGiorgioGiannini em geral) precisam de cordais pra cordas de aço; sem ele é quase certo de que no mínimo o cavalete (o lugar onde se prendem as cordas) ou até o tampo inteiro se descole do resto do corpo. Os violões clássicos continuaram usando cordas de catgut até por volta de 1950, quando Andrés Segovia, talvez o violonista mais importante da história e o responsável por tornar o violão um instrumento erudito, se tornou o primeiro a usar e recomendar as recém-inventadas cordas de nylon — um material com mais som, mais estável e mais resistente, mas ao mesmo tempo com propriedades mecânicas e acústicas bem próximas ao catgut.

Durante esse período entre 1900 e 1950, enquanto Segóvia tornava o violão europeu/flamenco o que hoje é o violão clássico, na América do Norte o violão adotava definitivamente as cordas de aço e seguia com a sua vocação original: a de ser um instrumento da música popular. Os fabricantes — Martin era um dos principais — se voltavam para o interesse do grande público, que era a nascente música country e o blues. Nesse momento, a Gibson Co.,  uma fabricante de bandolins que também estava entrando no mercado de violões, patenteia o tensor de braço para resolver de vez o problema das cordas: acontece que a força exercida pelas cordas de aço é tão grande que a tendência do braço dos violões era empenar com o tempo — o tensor possibilita a correção e controle desse empeno. Todos os fabricantes passaram a adotar este acessório até hoje — mas apenas para violões de cordas de aço, pois os de nylon não precisam disso. E é por isso que eu disse lá em cima: com ou sem cordal, violões de nylon não suportam a tensão excessiva das cordas de aço.

Um braço de violão de aço com a escala removida: senhoras e senhores, com vocês, o tensor!

Um braço de violão de aço com a escala removida: senhoras e senhores, com vocês, o tensor!

A outra característica hoje comum a todos os violões de aço é o braço com escala maior; após atender eventualmente a alguns pedidos personalizados de músicos, e tendo a intenção de revitalizar as vendas depois da Grande Depressão americana, a Martin (de novo a Martin!) começa a oferecer como padrão violões com escala longa, o que facilitava o acesso às notas mais altas — até então, os violões da época usavam escalas de 12 trastes (exatamente como os clássicos usam até hoje), o que quer dizer que o 12º traste fica bem na junção do braço com o corpo. Os violões Martin começaram a vir com uma escala de 14 trastes. Juntamente com uma mudança sutil na largura do braço, esta característica agradou tanto que os outros fabricantes também seguiram a tendência e se tornou padrão.

Viu? Isso tudo é pra justificar o porquê de eu não colocar corda de aço no meu velho violão de nylon. Eu e mais ninguém, por favor. Violões de nylon tem seu uso por si só — por mais sonoras que sejam as cordas de aço, nada substitui o timbre e a pegada de um clássico pra música erudita, e pra música brasileira em geral inclusive: é impensável (pra mim ao menos) reproduzir o violão de samba, choro e bossa nova corretamente em cordas de aço. Já para grandes levadas (como a country music e derivados como rock e etc., e para as nossas modas de violão caipira regional), acho que um clássico não consegue competir com o ataque e a projeção de um grande violão folk. Cada um com seu cada um, hehe…

Mas então, voltando ao assunto inicial, eu estava precisando de um bom violão de aço. Faltava saber o tipo.

— Como assim, tipo?

— Ué, não é tudo violão folk?

— Quanta frescura…

… Eita. Isso é pro próximo post…

10 Comentários

  1. Bom dia, eu ganhei um violão antigo do meu tio, ele é da família e possui um grande valor sentimental, ele é um Giannini serie: Trovador, mod: AWST e ser: 9,6 ou 8,6 (não dá para entender direito).
    Fui em um tecnico e ele disse para usar corda de aço, o que não sei se é realmente indicado, minha divida é se devo usar aço mesmo ou Nylon.. e se for nylon qual deve ser a tensão: baixa, media ou alta?

    • Oi, Jaqueline. Bom, o pouco que eu conheci dos Giannini antigos (e só conheci esse modelo, o Trovador) me diz que ele não é adequado pra corda de aço não… Eu não conheci TODOS os modelos e posso estar enganado, mas todos os que eu conheci eram clássicos — exatamente como eu falei no site, violões com braço simples sem tensor e com reforço interno de violão clássico. Sendo um violão antigo, sobretudo se for de antes de 1960 (a Giannini fabrica violão desde o início do século XX, eles são tão antigos quanto a Gibson americana — veja se você consegue encontrar a data de fabricação dele na etiqueta dentro da boca), eles certamente são feitos com madeiras resistentes que talvez suportem a tensão das cordas de aço. E é claro que eu já vi um monte de gente usando corda de aço neles, mas minha religião não me permite recomendar isso, rsrs… Sobre tensão das cordas de nylon, aí é só uma questão pessoal mesmo: cordas de tensão alta soam mais alto, mas são mais “duras” para os dedos. E o contrário se aplica, tensões mais baixas são mais macias mas soam menos. Mas mesmo um jogo de cordas de nylon de tensão alta faz muito menos força no violão do que um jogo de cordas de aço.

      Eu vi muito mais “Di Giorgios” do que “Gianninis” entre os violões nacionais antigos que toquei; até onde sei (e como disse, não sei tanto sobre eles) o modelo Trovador já foi referência tanto do violão principal da marca quanto de modelos “estudante” (se não me engano eram os modelos entre as décadas de 70 e 80 — isso pelo que ouvi OUTRAS PESSOAS dizerem, então não posso afirmar com certeza), e sei que existe Giannini Trovador desde 1940. Não conheço os modelos, então não posso dizer qual o seu seria. O que posso dizer com certeza é que os Gianninis sempre me passaram uma sensação melhor do que os Di Giorgio, mais confortáveis em relação ao braço e com um som menos nasal. Ah, e estou me referindo aos Giannini ANTIGOS, de até 1990… A marca saiu do mercado um tempo e voltou nos últimos 10 anos. Essa “nova Giannini” é como tantas outras nacionais e internacionais: quase toda a produção vem da China, salvo modelos especiais.

      Bom, espero estar ajudando. Qualquer coisa mantenha contato. Não tenho tido tempo de escrever mas continuo aqui no site. Abraços!

    • Olá.
      Coincidentemente estou reformando um violão igual a este. AWST 1 Ser (acho que é série) 11/4.
      O que posso te garantir é que não serve para cordas de aço. Faltavam engrosso de bordas e leques. Agora, depois da reforma, está bem melhor, mas mesmo assim não recomendo o uso de cordas de aço somente com os leques. Necessita de uma trava em “X” para maior segurança e fixação do cavalete com 2 parafusos pequenos e embutidos no cavalete.
      Você pode ver meus trabalhos no facebook, me mandando um recado, eu libero o álbum para você. É que está liberado apenas para o dono do violão.
      Uma dica: violões de pinos grossos são para cordas de nylon e os de pino fino são para cordas de aço, mas eu não confio muito nisto e costumo checar a estrutura interna,
      Me localize: luiz.costa.902@facebook.com.br.
      Abraço.

  2. Tenho um Gianini série estudo feito a mão de 15 anos daqueles que tem o nome dourado na mão. e não troco ele por inúmeros violões por ai de aço, tempos atrás eu achava que violões de nylon eram ruins e que só de aço eram bons mas quando comprei esse de varias mãos apaixonei-me pela sonoridade e toco MPB e Rock e o instrumento da muito vencimento. mas queria saber uma pequena coisa como meu violão é um pouco velho e os ex donos colocaram cordas de aço o cavalete estar soltando e o tampo também (no momento colado) foi posto um cordal eu troquei as cordas para nylon quando comprei e deixei o cordal te alguma interferência ou prejudica em alguma coisa ao instrumento?
    desde já agradeço

    • Camarada Victor, eu recomendo manter o cordal, principalmente se o cavalete ainda está se soltando ou está solto. A interferência que o cordal causa acaba sendo pouca mesmo que estivesse tudo bem, na verdade ele acaba sendo desnecessário mas pouco interfere no som do violão. O que acho importante mesmo é você mandar o seu violão para um luthier para colar o cavalete. Se essa peça se soltar completamente e depois for mal posicionada na colagem, seu violão pode ficar FORA DE TRASTE, ou seja, ele não vai mais afinar corretamente. E por isso também não recomendo fazer a colagem “por conta própria”, porque acho que esse processo tem mais variantes do que simplesmente “passar super-bonder”; o cavalete é a principal parte responsável por transferir a vibração das cordas para a caixa de ressonância (o corpo do violão) em meu ver, por isso acredito que para a colagem dele deve existir uma cola de madeira específica e um modo de aplicação.

      Forte abraço, camarada, e boa sorte.

  3. Eu tenho um violão feito para cordas de nylon, tarrachas brancas e tudo mais. Porém ele veio com o tensor. Se eu por um cordal e trocar as tarrachas eu poderia por cordas de aço nele ?

    • Fala, camarada.

      Cara, com um tensor mais um cordal acredito que seja seguro sim. Mas acho que as tarraxas não precisam ser trocadas, os jogos de cravelhas padrão se usam para os dois tipos de violão. Aliás, dica: até onde sei ambos os nomes estão corretos, mas é mais comum usar o termo “tarraxa” para as tarraxas individuais (que são usadas em violões de aço e guitarra), e “cravelha” para o que se usa normalmente no violão de nylon — dois jogos de 3 cravelhas, um de cada lado da mão do violão.

      Falou, camarada. Precisando, to por aqui!

      • Ok, obrigado. 🙂

  4. fala rapazeada amante da cultura e da boa musica. tenho uma curiosidade, o andrés segovia usava cordas de nylon ou de aço? uso cordas de aço e escuto o som bem diferente do das musicas dele.

    • Olá, camarada. O Segóvia usava cordas de nylon; mais do que isso, o Segóvia é o cara que popularizou as cordas de nylon como padrão para o violão clássico, antes dele o padrão para violão erudito eram cordas de catgut, um tipo de material feito de tripa de bicho. Cheguei a comentar isso no próprio post. Forte abraço.

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