Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Violões de corda de aço, parte 3: NÃO é tudo violão folk!!!

Escrito em 24/01/2014 | 3 comentários

Oi! Será que tem alguém querendo saber como terminou a saga do violão novo? Pois é… Muitas emoções até uma conclusão — será um final feliz ou trágico? Será que termina sem final, feito filme de terror? Será que abre espaço pra uma continuação? Eu queria poder responder isso agora… Mas como ninguém mandou nem um mísero comentário perguntando, então EU NUM CONTO!!!!

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Archtop e violoncelo

Vou aproveitar para lembrar um assunto que tinha deixado pra depois. Tempos atrás, eu estava explicando sobre violões de cordas de aço e nylon, sobre violões folk… Ficou faltando uma parte. Lembra que eu falei que violão de corda de aço era tudo violão folk? Então. Eu menti! Tem alguns violões que usam corda de aço, mas o senso comum (pelo que percebi até hoje) não chama eles de folk… Aliás, alguns nem são chamados de “violão”.

Aliás, na verdade é apenas nos países lusófonos (ou seja: nós brazucas, nossos patrícios portugas e suas outras colônias) que temos um nome específico para “violão“; em outras línguas como o inglês, o alemão e o castelhano é tudo “guitarra” (ou variações dessa palavra, claro…), que é um termo de origem muito antiga e mais abrangente — vem do latim cithara, que virou kitara em grego, pra designar um instrumento parecido com a harpa, lá na antigüidade muito antiga, de antes de Cristo e tudo. O termo é antigo, mas foi se transportando de Roma para Arábia e também subiu pela Europa, e passou a ser usado pra instrumentos medievais derivados do alaúde (como a guitarra mourisca e latina, na espanha) que também viriam a evoluir para o violão como conhecemos desde o século XIX mais ou menos.

VihuelaMas o termo violão vem de um instrumento renascentista específico e que provavelmente foi o ancestral mais semelhante a ele: a vihuela ou viola de mano espanhola, que ficou bastante popular tanto na Espanha como em Portugal no século XVI. Creio que tanto o formato quanto o nome (também existia a chamada viola de arco na época, bem parecida exceto pela diferença óbvia, hehe) vem da família dos violinos e seus parentes de arco, que também “nascem” nessa época. Mas a viola de mão tinha normalmente 6 cordas e usava uma afinação muito semelhante à de hoje. E é só olhar a imagem ao lado pra ver a semelhança óbvia com o nosso amigo 500 anos mais jovem.

No fim das contas, a vihuela acabou meio que sumindo, e dando lugar a instrumentos como a guitarra barroca de 5 cordas e outros até evoluir para os nossos de hoje… Mas o termo “viola” (que gerou “violão”) continuou valendo em portugal pra denominar instrumentos parecidos, pois o termo “guitarra” já era associado à guitarra portuguesa, que eu conheço muito pouco mas lembra (ao menos no formato) o bandolim, os alaúdes e a guitarra mourisca…

Então eu pergunto: O QUE É um violão e o que o diferencia das outras “guitarras” de hoje? Os gringos, talvez mais espertos, simplesmente o chamam de “guitarra acústica” porque é um modo moderno e rápido de explicar, enquanto nós, românticos portugueses, temos um nome só pra ele. Respondo do meu jeito: acho que posso considerar “violão” um instrumento de 6 cordas que é (ou pode ser) normalmente usado com uma afinação padrão (E-A-D-G-B-E, da mais grave à mais aguda) e depende da vibração do próprio corpo pra gerar som acústico — não incluí violões de 7 e 12 cordas, porque acho que são uma categoria à parte — por exemplo: um violeiro não toca naturalmente um violão de 7 cordas, é preciso aprender um novo instrumento. To seguindo meu instinto, perdoem se eu estiver errado, rsrsrs….

Bom, os tipos abaixo são exatamente isso — “violões” no conceito que descrevi, são feitos para cordas de aço, mas talvez pela aplicação, por diferenças estruturais ou talvez só estéticas, ninguém chama eles de folk. Nem eu. Sabe lá Deus o motivo. Vamos a eles:

Archtop

gibson l5 1947

A Gibson L-5, a archtop-mãe das guitarras elétricas

Na virada do século XIX pro XX, alguns luthiers começaram a testar os princípios mecânico-acústicos dos violinos para a fabricação de violões. Pra quê? Simples. Pense num “conjunto musical” urbano/popular norte-americano do início do século passado: um trompete, um sax ou flauta, um bumbo e/ou pandeirola e um violão pra unir o conjunto. Quem já ouviu de perto um sax ou outro que eu citei, sabe que um violão comum é incapaz de competir com eles em termos de volume sem um equipamento elétrico, o que ainda não existia na época. Mas já ouviu um violino ao vivo? Ele toca tão alto quanto aquele mesmo sax. Então alguns fabricantes de violão começaram a usar princípios de construção dos violinos, como:

  • uma caixa de ressonância (fundo, tampo e laterais do corpo) feita em blocos entalhados de madeira ao invés de peças cortadas em lâminas e arqueadas, usando menos reforços e colagens internas;
  • Uma ponte “flutuante” (já expliquei o que é isso bem aqui) com cordal, ao invés de uma fixa;
  • Tampo e fundo com formato arqueado ao invés de reto (daí o termo “Archtop”), com madeira mais grossa nas partes centrais.
Maybelle carter, pioneira do country com uma L-5 em 1928

Maybelle carter, pioneira do country com uma L-5 em 1928

O primeiro fabricante a ficar conhecido por esse tipo de instrumento foi Orville Gibson — e foi a partir de violões e bandolins feitos sob estes padrões que nasceu a marca. Em 1922 surge a Gibson L-5, projetada por Lloyd Loar, introduzindo os “f-holes” e estabelecendo de vez o padrão que seria copiado por vários outros fabricantes, e que seria também o instrumento-base para as guitarras elétricas. A partir disso, as archtops passaram por praticamente todos os estilos musicais norte-americanos e foi adotada pelo jazz. Com a popularização da amplificação elétrica, as archtops puramente acústicas passaram a ser cada vez menos procuradas, e hoje são poucos os fabricantes que trabalham com este tipo de instrumento — a própria Gibson já não tem mais nenhuma em produção. Mas existem fabricantes especializados neste tipo de instrumento, como a Benedetto. E posso citar opções mais acessíveis como Gretsch, Godin e The Loar.

Eu nunca peguei numa archtop acústica (hoje em dia isso é incomum até lá fora, imagina aqui), mas o que os especialistas e músicos em geral dizem é que as boas realmente cumprem a função de atravessar a barreira sonora do resto da banda. E do que já ouvi, as archtops tem realmente um timbre interessante e dinâmico, e quando a gente enche a mão e toca com força elas puxam para os médios (exatamente o que mais dá volume a um violão comum).

Selmer/Maccaferri

violões Selmer

Violões Selmer: um modelo “Maccaferri” e alguns “Modèle Jazz

Enquanto nos Estados Unidos surgiam as archtops, na Europa a Selmer, uma empresa de instrumentos francesa, produziu, de 1932 a 1952, violões com o mesmo apelo — ter projeção acústica suficiente para ser ouvido em uma banda. Com princípios de construção baseados nos violões clássicos europeus (já comentei sobre as diferenças dos padrões europeu X americano aqui), e com adaptações originais e completamente diferentes das archtops americanas, tanto os primeiros modelos Selmer (projetados pelo italiano Mario Maccaferri, daí a associação) e especialmente os posteriores (os Modèle Jazz, também chamados de “petit bouche”, ou “boca pequena”) cumpriram bem a missão.

DjangoReinhardt

Django Reinhardt, com um Selmer Maccaferri

Os violões Selmer não se tornaram populares o suficiente, e menos de 1000 unidades foram produzidas no total. Mas ganharam status graças ao francês/cigano Django Reinhardt, o primeiro grande músico de jazz europeu e um dos maiores guitarristas de todos os tempos (isso segundo a Wikipedia), que adotou os Selmers como seu instrumento definitivo. O próprio Django teve uma vida e carreira curta, e só passou a ser realmente conhecido cerca de 15 a 20 anos após sua morte, quando se renovou o interesse no estilo musical fundado por ele, o Gipsy Jazz — renovando-se assim também o interesse nesses instrumentos, que foram e continuam sendo reproduzidos por alguns fabricantes. Há cerca de uns cinco anos atrás, até um fabricante nacional, a Eagle, possuía um modelo baseado na versão Maccaferri.

Não tenho impressões dele ao vivo, então dei uma longa pesquisada. Segundo alguns luthiers especialistas (como Paul Hostetter), os modelos são ricos em todos os registros, com graves presentes e agudos brilhantes; os Maccaferri soam menos alto mas possuíam um sistema ressonador interno que enriquece o seu timbre de um modo difícil de explicar. Já os Modèle Jazz realmente falam ALTO, tendo especialmente agudos cortantes.

Resonator

Resonators

Os três designs originais de resonators de Dopyera, da esquerda para a direita: Tricone, o Dobro e o tipo biscuit (nesse caso, o modelo Style O)

De volta aos Estados Unidos, de volta à questão do volume. Além da Gibson com suas Archtops e da Martin com seus Dreadnoughts (não entendeu? vá no link dos violões folk lá em cima), outros luthiers recebiam pedidos para violões que conseguissem se sobressair dentro do som de uma banda. Em 1925, o luthier/inventor John Dopyera, a pedido de um cliente, cria um violão com corpo de metal e três cones de alumínio sob a ponte, unidos a ela por uma extensão por onde recebem a vibração das cordas e atuam como um alto-falante. O resultado é um violão com um timbre caracteristicamente metálico, que soava 3 a 4 vezes mais alto do que um violão comum. Estava inventado o chamado Tricone, o primeiro modelo de resonator, e com ele, a National String Instrument Corp.

Cones

Cones de resonators: acima, o modelo National (com o biscuit preto e a ponte no topo); abaixo, o modelo Dobro (com sua ponte própria, chamada de Spider bridge)

Diz a história que Dopyera achava alto demais o custo de produção do tricone, o que o afastava de muitos músicos. Ele mesmo já havia projetado um novo sistema com um único cone e apresentado à National, mas que não havia sido produzido. Então em 1928 ele sai da empresa e funda a Dobro Manufacturing Company com seus irmãos (“Dobro” sendo uma contração de “DOpyera BROthers”). Como a National já possuía um design patenteado de resonator de cone único (aquele, feito por ele próprio!), Dopyera precisou desenhar um novo modelo, e então ele projetou um formato invertido de cone (formato de “tigela”, como a própria Dobro chamava) para um corpo de violão em madeira.

O modelo Dobro era mais barato de se fabricar e falava ainda mais alto do que o Tricone. Então a National se viu obrigada a usar o projeto abandonado de Dopyera, e lançou seu resonator de cone único; na verdade foram vários modelos tanto com corpos em madeira quanto metal, sendo o “Style O” o mais famoso, mas todos eles usavam basicamente o mesmo sistema: um cone de alumínio diretamente preso à ponte por um bloco redondo de madeira — um “biscuit” de madeira, por assim dizer. É assim que esse tipo de resonator é mais conhecido: “tipo biscuit“.

Violao dinamico

Um violão dinâmico Del Vecchio

Os modelos de resonator em fabricação no mundo até hoje são baseados nesses três designs, talvez com exceção do modelo brasileiro de Angelo Del Vecchio, chamado por ele de “violão dinâmico“. Ou talvez ele também seja de algum modo baseado neles, pois é ligeiramente posterior — década de 30 — e usa basicamente o mesmo sistema de biscuit. Aqui no Brasil, eu já vi muitos desses na mão do pessoal repentista. Há pouco tempo, a fabricante brasileira Rozzini colocou à venda uma linha de violões e violas (chamados por eles de “violões vibrantes”) baseados nos resonators Del Vecchio. Hoje, a marca Dobro é propriedade da Gibson, que produz tanto modelos Dobro como versões do modelo biscuit (em corpo de madeira apenas) chamados de Hound Dog por eles. A National já foi vendida, remontada, mudou de nome e dono, e hoje ela está de volta e fabrica reproduções de seus modelos clássicos e também modelos Dobro sob a marca Smith & Young. Eu destaco como opção de bom custo/benefício (claro, se você vai fazer compras fora do Brasil) os da Busker Guitars, e em especial os modelos Michael Messer; esse camarada é um britânico que é autoridade no assunto resonators e suas versões dos resonators biscuit National são muito bem recomendadas.

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Um jovem Mark Knopfler, bandleader do Dire Straits, com seu National Style O

Eu sou completamente TARADO pelo som desse negócio. Tenho um de metal, tipo biscuit, é só ouvir a minha gravação de With a Little Help from My Friends pra saber como ele soa. As diferenças sonoras entre os tipos de resonators são sutis pra quem não está acostumado, mas os Dobros tem um som mais doce e definido entre graves e agudos (pense em Clapton Unplugged) enquantos os biscuit são mais nasais, mais mid-range (pense em “blues”, não sei dizer ninguém específico… tem o próprio Michael Messer, que citei ali acima). O tricone é mais equilibrado e fica entre os dois, nem tão nasal nem tão brilhante. O corpo metálico acrescenta um “eco interno”, um tipo de “reverb” natural que os de madeira não tem — só ouvindo ao vivo pra entender; em compensação, o corpo de madeira produz um som mais macio, mais “violão”, em contraponto à estridência do corpo de metal. Todos eles sempre foram principalmente usados para blues e country/bluegrass, pra bandas em formato acústico — geralmente com slides e às vezes tocados em posição de lap steel guitar (explico as duas coisas no vídeo do final). Mas com o tempo, músicos de vários estilos já se voltaram para o resonator por seu timbre único.

Roundback

Ovation Adamas

Ovation Adamas, o roundback mais emblemático de todos

Na década de 60, a amplificação elétrica já não era mais novidade. Guitarras e microfones já eram o padrão para grandes shows. Talvez por isso, todos aqueles tipos de violão ali em cima estavam em baixa em relação a apresentações ao vivo, como estava qualquer tipo de instrumento puramente acústico. Com o avanço da tecnologia, já existiam até meios de captar o som desses instrumentos com alta qualidade — como microfones avançados e captadores piezelétricos muito mais fiéis do que os magnéticos de guitarra — mas todos eles sofriam com a barreira da microfonia (ainda não sabe exatamente o que é? Vivo falando disso, veja aqui e aqui pra entender), essa sombra maligna que atrapalha a vida dos músicos até hoje. Já expliquei um pouco sobre violões roundback quando vendi o meu — o que chamava de Ameixa, quem não leu, clique no link e leia, tem mais detalhes lá.

Fundos ovation

Diferentes tipos de fundos de fibra: quanto maior, mais presentes os graves. O meu era o mais fino de todos, e mesmo assim falava tão alto quanto um folk dreadnought…

A história é basicamente a que já contei: Charlie Kaman, um designer de aeronaves e dono de uma empresa de helicópteros premiada, juntamente com sua equipe, resolvem desenvolver uma “evolução do violão“, num sentido amplo da palavra. Eles fundam a Ovation Instruments, e em 1966 lançam o Ovation Balladeer, o primeiro roundback — um violão com tampo de madeira e fundo ovalado feito de um material que eles batizaram de Lyrachord, um composto de fibra de vidro e resina. Os violões foram uma curiosidade visual e chamaram a atenção quando apareceram em rede nacional americana nas mãos de Glenn Campbell, um cantor e músico que tinha um programa de TV nos anos 70.

Queen Ovation

Freddie Mercury e Brian May, cantando Love of my Life no Rock in Rio, 1985

O fundo arredondado é inesperadamente confortável, realmente ajuda a aumentar o volume acústico do violão e ao mesmo tempo é resistente à microfonia. Não por acaso, a Ovation foi a primeira fabricante a vender violões eletro-acústicos, com sistemas de captação ativa — ou seja, um sistema com sinal forte e alto pra resumir — embutidos. E por isso se tornou muito popular entre os músicos dos anos 70 e 80; pense no Queen tocando Love of My Life ao vivo num estádio gigante; aquele violão é um Ovation Balladeer de 12 cordas. Outros caras como Alex Lifeson (do Rush), Al di Meola, John MacLaughlin e mais um monte de gente adotou o roundback como instrumento. E por isso, mesmo sendo construído com um material singular, muitos outros fabricantes hoje em dia oferecem sua versão — aqui no Brasil a primeira marca a lançar seu roundback no mercado foi a Giannini com a linha Fiber Tone, e hoje a Eagle Instrumentos tem o seu modelo.

E por hoje é só, pessoal. Tomara que eu não tenha esquecido nada. Obrigado pela paciência, você que chegou até aqui! Como prêmio, segue um vídeo de Jerry Douglas, um dos grandes caras de resonator. Ele toca em posição de lap steel (ou seja, com o violão deitado no colo) um Dobro squareneck (ou seja, de braço quadrado, mais grosso para suportar cordas de tensão mais alta, e que só pode ser tocado como lap steel), e com um slide (quer dizer “deslizar” em inglês, e é a coisinha de metal na mão dele. Veja o vídeo e entenda pra quê ele serve). Olha que bacana:

3 Comentários

  1. Ótimo post!!!! Adoro o jeito como você escreve *-* Mas a pergunta que não quer calar é: Que fim levou a saga do violão ???? Conta,conta que eu estou morrendo de curiosidade . Super Bjo =)

    • Você tá se referindo ao sentido literal? Sim, claro. Literalmente, violeiro toca viola (um parente do violão, de geralmente 10 cordas) e violonista toca violão. Mas, literalmente, dizer que viola e violão são parentes é maluquice, porque nem são seres vivos, rsrsrs…

      No caso, eu falo de modo informal, que é o modo mais gostoso de viver na minha opinião… é como sempre fui chamado e como se tratam os “companheiros de música” informais que tive… Nunca fui apresentado a ninguém como “violonista” quando chegava na casa de um novo amigo ou em um churrasco — era sempre “chegou mais um violeiro aí!”. Já fui chamado assim em vários cantos: no Espírito Santo, no Rio de Janeiro (desde Itaperuna e Campos até a Capital), em Minas, em Porto Alegre… por isso achei que era um modo informal natural a qualquer lugar.

      Mas vale a observação, pra quem não tá acostumado com o termo… Valeu!

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