Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Violões de corda de aço, parte 2: Tipos (ou: é tudo violão folk!)

Escrito em 08/10/2013 | 5 comentários

Tudo folk!Mês passado. Dentro de uma loja de música, na Rua da Carioca. Eu aponto um violão no mostruário pro vendedor:

— Camarada, posso dar uma olhada naquele ali?

— Qual dos dois? Aquele folk ou o outro?

— O folk não. O outro, o jumbo.

— Ok. (grita pro outro vendedor atrás do balcão) Ô Celso, pega o folk redondo aí pro freguês!”

O termo “música folk” na cultura norte-americana (ou estadunidense, como tá na moda de se falar agora) engloba o que o mundo conhece como música country e aquelas sonoridades que tem raízes na música escocesa, na irlandesa, até na música celta. Na verdade, o termo é europeu mesmo e em inglês ele abranje tudo o que é música que vem da cultura popular no mundo, mas é usado com freqüência pra distinguir os tipos de música que eu citei ali em cima — a que é gerada e difundida pelo povo vindo da Grã-Bretanha e que buscava se estabelecer na tal “terra livre” que era a América.

E por quê eu to citando isso? Pra explicar que sim, dá pra chamar quase tudo o que é violão de corda de aço de “violão folk”. Como eu falei naquele post chato anterior, esses tipos de violão foram desenvolvidos para o músico popular desde o seu início — inclusive antes de existirem as cordas de aço em si já existiam violões folk. Mas ao contrário do que parece quando a gente simplesmente chama tudo de “violão folk”, esse território é rico de variações de tamanhos e formatos. Cada tipo de violão tem características específicas e, por conta disso, aplicações preferenciais. E aqui vai um guia simples pra violões folk…

Parlor (ou Parlour)

John Mayer com sua parlor, uma Martin size O

John Mayer em 2012 com sua parlor guitar, um Martin size O

O termo “parlor guitar” designa basicamente um violão de corpo menor. Este formato já tem existência documentada desde 1850, e é anterior às cordas de aço, mas migrou automaticamente para elas. A impressão sonora que ele causa é surpreendente — geralmente alto para um instrumento de corpo pequeno. O timbre é sempre bem focado no mid-range, com muito ataque e presença — ótimo para solistas, mas não tão bacana (na minha opinião) para grandes levadas e batidas. Essa forma pode parecer incomum à primeira vista, mas ele foi muito popular: se você parar pra pensar, vai lembrar de ter visto exatamente esse tipo de violão nas mãos dos cowboys de filmes antigos. Ele andou por um tempo em baixa, mas hoje em dia o interesse por esse modelo voltou, pelo gosto de uma série de músicos modernos em busca seja pelo conforto do tamanho pequeno, ou mesmo pelo visual e som “vintage” em si.

Auditorium

Sr. Clapton em 92, gravando o Unplugged, com o Martin Auditorium que ele usa até hoje

Mr. Clapton em 1992, gravando o Unplugged, com o Martin Auditorium que é uma das suas “marcas registradas” até hoje

É o chamado “tamanho 28” da Martin. Acredito que o número tem relação com o nosso brasileiro “Clássico 28” Di Giorgio que tem medidas de corpo parecidas, mas não consegui descobrir se essas medidas por acaso são anteriores ao modelo da Martin ou se a Di Giorgio se inspirou diretamente nele. O que posso dizer é que esse foi o primeiro padrão para violões folk e foi estabelecido pela Martin em torno de 1930. Foi o primeiro a ter a escala de 14 trastes como padrão, o que agradou muito aos solistas, que vinham principalmente de instrumentos de escala longa como o banjo. O timbre e a pegada são equilibrados, tem graves, médios e agudos, e tem a medida certa de volume de som e conforto (ao menos para a maioria, na época que o elegeu como padrão). Tanto a Martin quanto outras fabricantes da época (1900 a 1940) tinham outras variações de tamanho e formato próximas, mas este modelo foi ficando tão popular que acabou se tornando o primeiro padrão para folk. Atualmente os violões mais “badalados” baseados nele são os da Taylor; já toquei em um e são mesmo coisa do outro mundo.

Dreadnought

Johnny Cash

Johnny Cash, nos anos 50, com um dos vários dreadnoughts da Martin que ele usou

Esse é o modelo que todo mundo olha e fala: “ISSO que é um violão folk, os outros só parecem que são.” É aquele violão de corpo largo, com poucas curvas e “ombros” quadrados. Aqui no Brasil ninguém conhece ele por esse nome, mas é assim que ele é chamado lá fora — outra invenção da Martin, e o nome “dreadnought” vem de um tipo de navio de guerra enorme, famoso na época. Esse formato de corpo foi bolado pra soar alto e os bons modelos geralmente entregam graves profundos e agudos brilhantes. É o violão folk dos violões folk, todo fabricante de violões que se preza tem uma versão desse modelo e está nas mãos de tantos músicos que é até difícil escolher alguém específico pra ilustrar aqui ao lado.

Advanced Jumbo (Dreadnought de ombro redondo)

Sir Paul McCartney com seu eterno Epiphone Texan, com o qual ele gravou Yesterday

Sir Paul McCartney com seu eterno Epiphone Texan, com o qual ele gravou Yesterday

Apesar da Martin ter lançado e popularizado os “dreads“, a Gibson também teve sucesso com seu modelo, que creio que era baseado tanto no modelo da Martin quanto nos seus próprios padrões de tamanho e formato. Esse modelo substituiu o anterior chamado simplesmente Jumbo, e foi substituído posteriormente na produção da época, entre 1930 e 1945, pelo modelo Super Jumbo. Mas o interesse dos músicos por ele foi grande o suficiente para a Gibson retornar algumas vezes à produção do mesmo, e gerou suas “cópias” — as versões da Epiphone, uma fabricante que já fazia parte do grupo Gibson também ficaram bem famosas nas mãos dos Beatles e Roy Orbison, entre outros. Segundo as resenhas que achei (pq nesse modelo nunca toquei), o som dele é bem parecido com seu irmão de ombro quadrado, mas com timbre menos complexo (ou seja, médios mais presentes).

Jumbo

Elvis Presley e seu Gibson J-200

Elvis Presley e seu Gibson J-200

O chamado Jumbo é originalmente o “Super Jumbo” que eu citei ali em cima, que começou a ser produzido substituindo o modelo Advanced Jumbo. Desde que entrou em produção ele continua sendo fabricado pela Gibson, e as grandes marcas (como a Taylor, Takamine, Yamaha e um monte de outras) adotaram o formato como padrão. Ele tem um corpo ainda maior, mas ao contrário dos dreads, ele tem curvas bem definidas, um cavalete em forma de bigode, cheio de detalhes e todo lindão. Rapidamente ele virou vedete, apareceu em um monte de filmes de hollywood, e toda a garotada aderiu. Dá uma olhada ali do lado no cara que mais contribuiu para a fama desse modelo… Segundo resenhas, os bons exemplares têm um som gordo e bom pra batidas, mas com pouca presença pra solos. Eu testei reedições modernas, da Epiphone e da Ibanez e gostei dos timbres, mas nenhum me impressionou em termos de volume acústico. Mas são uma delícia no quesito conforto: o corpo gigante — o nome Jumbo é muito apropriado — acaba se acomodando perfeitamente, mesmo no colo de um nanico feito eu, graças ao formato de curvas generosas. Quase comprei um desses.

E estes são os formatos de violão folk. Acho que não deixei nenhum de fora, só os que eu não colocaria na categoria de folk… Arbitrariamente talvez, porque isso pode ser subjetivo. Mas tem sim, outros tipos que eu não chamaria de folk. O Ameixa é um deles, ninguém reparou? É triste só ter dois leitores, ninguém faz nenhuma pergunta, nenhum comentário… Enfim, esses tipos ficam pra outro dia…

Só de curiosidade: dê uma olhada na primeira imagem desse post. Antes, todos aqueles violões eram quase idênticos pra você? E agora, tá vendo diferenças? Espero que sim, hehehehe… E pra terminar, um vídeo do violão que eu quis muito comprar… mas não encontrei no Brasil, hehehe… Se você prestou atenção no texto, dá pra descobrir o tipo (e até o modelo exato, tá dada a dica)…

5 Comentários

  1. Epiphone J-160!

    • A benção, irmão-guru Bessa…

      Na trave! Epiphone sim, mas outro modelo… o 160 é o modelo do Lennon, né? É outro que eu queria ter testado ao vivo mas não achei…

  2. Sempre aprendendo …

  3. Pra um cara apaixonado pelo Gibson J-200, foi de muito valor ter lido esse texto.
    Por não ter muito recurso pra comprar um original, estava pensando em uma réplica, mas não é uma réplica epiphone, é “made-china” mesmo. Mas Graças a Deus desisti de comprar. Porque mesmo tendo a beleza que esse ‘PAI DOS JUMBOS’ tem, eu não teria a qualidade no som, o que é mais importante. E pagaria pouco mais de 1.000,00 reais.
    Então decici comprar um Takamine Eg320c.

    • Que bom que eu ajudei, rsrsrsrs…

      Camarada, nunca peguei um “china”, gostaria muito de experimentar um pra ter uma ideia geral da qualidade. Pelo que um monte de gente tem falado (gente profissa inclusive), esses “chinas” melhoraram muito, até porque hoje em dia todas as grandes de violão e guitarra — Gibson, Fender, Gretsch, Taylor, Martin, enfim, acho que todas mesmo — fabricam suas linhas “baixo custo” (na verdade algumas até as “médio custo”) na China. Com certeza, recebendo instruções sobre controle de qualidade e tendo acesso aos detalhes de produção, a tendência era o pessoal da China, que é mestre em cópia, fazer réplicas cada vez melhores, né…

      Mas sem nunca ter visto uma dessas “réplicas MercadoLivre” de perto, eu iria pelo meu feeling: uma guitarra, por ser um instrumento elétrico e “modular”, com partes montadas e substituíveis, regulagem de afinação e altura de cordas bem mais simples no geral, talvez seja “segura o suficiente” pra ser uma réplica. Um bom luthier e um bom set de captadores transformam fácil uma guitarra “iniciante” ou “básica” (sem defeitos graves, claro) num instrumento “profissional”.

      Já um violão depende “apenas” do próprio corpo e da própria construção pra gerar som. Ou seja, depende das madeiras certas, de espessura e densidade bem pensadas das lâminas do corpo e dos reforços internos, até dos vernizes usados, depende da ponte do material certo pra transmitir a vibração das cordas corretamente e colada no local exato pra não comprometer a afinação, e mais coisas… detalhes demais (e custos de matéria prima) que influenciam ao mesmo tempo no som final do instrumento e não têm como ser trocados ou ajustados em geral. Eu acredito que um “violão réplica” dificilmente chegaria perto de um original como uma guitarra pode chegar. Só o meu feeling.

      Eu cheguei a testar um Takamine 320 como o seu, achei um ótimo custo/benefício e quase comprei na época. O que vc acha dele?

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