Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Violão Roundback: Applause AE28 – “Ameixa”

Escrito em 28/08/2013 | 0 comentários

Opa. E aí? Long time no see! Pois é, eu tenho trabalhado demais, sábados, domingos e feriados… Quando não to na firma de engenharia lá no Rio, eu to em casa consertando computador ou traduzindo documentos dos meu frilas. Ou então to tocando — já rolou uma quinta extra no Bay Market, já rolaram uns testes animadores numa pizzaria bem bacana ali da Lapa… E se nada disso tá acontecendo, eu tenho que consertar alguma coisa em casa, colocar meu escritório em ordem ou cumprir os compromissos de família que sempre aparecem pra tapar qualquer buraquinho livre da agenda… Enfim, é a vida que todo mundo da cidade leva, é a modernidade esdrúxula. Mas hoje vagou um momentinho e não tem ninguém olhando. Vamulá!

Mas então. Aconteceu uma coisa inédita na minha vida esse último mês. Depois de muito pensar, muito avaliar e muito protelar, finalmente cansei de arrumar desculpa pra mim mesmo e vendi um instrumento que eu usava pouco (mas usava) para comprar um melhor. Taí uma decisão que provavelmente vai me assombrar pro resto da vida. Por enquanto meu coração não acredita que foi uma boa ter vendido o Ameixa.

AmeixaAmeixa, como eu o chamo faz muito tempo, tem sido desde a sua compra (lá pros idos de 98) o meu violão caseiro. Ele veio pra substituir um dreadnought (por enquanto, leia isso simplesmente como “violão folk”) elétrico que eu cheguei a ter e com o qual nunca consegui me entender — mas feliz ou infelizmente um belo dia alguém (eu nem tava em casa, juro!) jogou ele no chão e BAM! Já era o braço do pobre folk. E eu, precisando de um violão elétrico pra tocar…

Sempre tive meio que uma atração por instrumentos “com personalidade”, vamos dizer assim. Então, entre as opções dentro da minha faixa de preço na época (minha nada. Francamente: da mamãe, hehe), claro que meu olho se prendeu nele: um violão roundback, de fundo de fibra e tampo lindão vermelho escuro. Eu já conhecia a marca e sabia que era legal. Depois de testar tão detalhadamente quanto um jovem ansioso conseguiria, eu não tinha dúvida: ele ganhava com folga de qualquer outro do mesmo nível. Ele veio comigo pra casa, e não só substituiu o outro violão de cordas de aço como também roubou o cargo de “violão principal” do velho Jack

Os violões roundback (que no Brasil muita gente chama de “violão fiber“, graças a Giannini, primeira marca nacional a fabricar e comercializar uma réplica, a linha Fiber Tone) foram uma invenção da americana Kaman Music Co., lá pra meados dos anos 60. O dono, Charlie Kaman, era um designer de aeronaves que já possuía uma empresa de helicópteros premiada, e um “violeiro” nas horas vagas. Sua idéia inicial, quando fundou a então chamada Ovation Instruments, era construir um violão acusticamente superior, usando os conhecimentos que ele e sua equipe de engenharia de aviação já possuíam sobre vibração e ressonância em diferentes materiais. O resultado foi esse: o Ovation Balladeer, o primeiro roundback, lançado em 66. O Applause AE28 é uma reprodução made in Korea desse mesmo modelo básico, com uma versão parecida de captação da época, passiva e bem simples.

Fundo roundback super shallowO fundo, feito de um composto de fibra de vidro, carbono e resina, é mais leve e resistente do que madeira, e garante tanta projeção acústica quanto um folk gigantão tendo a metade da largura — a versão mais fina tem entre 5 e 8cm de profundidade (pouco mais que uma guitarra elétrica) e volume acústico de violão full-size. E o formato de concha foi especificamente projetado pra impedir o feedback, aquele pesadelo sonoro que assombra até hoje quem precisa amplificar o som do violão. Os Ovation foram os primeiros violões a oferecer sistemas de pré-amplificação embutida (a famosa “captação ativa”, já comentei o que é isso aqui), exatamente por terem um corpo resistente a microfonia e por isso poderem trabalhar com volumes mais altos e equalizações mais presentes.

O braço, com o acabamento preto e fosco, é bonito, fino e rápido — pra quem prefere o braço largo de um clássico de nylon, ele é apertado; mas pra quem tem (ou quer ter) hábito de guitarra é identificação imediata. Eu estranhei no começo, mas depois que acostumei, tanto com o braço quanto com o corpo, passei a achar extremamente confortável. Eu facilmente teria outro no futuro — da próxima vez, se possível queria tentar um Ovation genuíno ao invés do Applause (que é a versão “segunda-linha”, made in Korea) pra poder apontar melhor as diferenças.

Mas se eu gostei tanto, então por que eu vendi? Pois é… Como um grande fã do conceito “custo/benefício”, é com um travo de amargura que tive que aceitar e admitir: preciso de um violão melhor. Por isso, analisei e concluí que o lugar do Ameixa é com um outro aprendiz, do nível que eu era a 10 anos atrás. Felizmente acho que o vendi pra alguém nesse perfil.

Pra começar, sempre senti falta de graves no timbre dele — talvez isso seja por causa do fundo “super-fino”. Isso não tem solução, mas não é defeito: mesmo sendo mais forte de médios e agudos, ele sempre entregou um som definido e nunca embolado. É questão de gosto: eu curtia no começo e deixei de curtir com o tempo.

controle do ameixa

O sistema de pré do Ameixa: só um controle de volume e tone.

Já a falta de um bom captador ativo e com pré-equalizador (como os Ovation modernos têm) me fez falta pra tocar ao vivo. O sistema passivo dele puxa para os agudos, demorei pra aprender a equalizar e sempre acabo dependendo da mesa de som — pra um aprendiz é ótimo, até porque me forçou a estudá-lo e lidar com o som dele ligado; mas hoje eu tenho trauma de operadores de áudio, prefiro ter um equalizador à mão, hehehe… Comecei a analisar um upgrade a partir daí: achei um sistema ativo honesto custando no mínimo R$160 + frete de uns R$20 + cerca R$80 de instalação (supondo que o fundo de fibra não seja problema pro luthier)…

E aí tinha mais um upgrade peculiar pra fazer. Os trastes do violão estavam amassados de tanto uso e causando trastejamento em uns pontos. Há uns dois anos atrás eu já havia mandado regular o braço dele, aproveitei e pedi pra lixar os trastes pra minimizar esse problema. O Ameixa ficou uma delícia pra tocar, e o problema sumiu. Mas voltou. Não dá pra negar: metal vagabundo — um caso que eu nunca tinha visto com violão, onde a escolha de materiais acaba causando um problema a longo prazo. De qualquer modo, os especialistas recomendam sempre trocar os trastes originais de qualquer instrumento; trastes mais grossos (chamados “trastes jumbo”, talvez você já tenha ouvido falar) são mais confortáveis, mais leves pra tocar e fazem diferença até no som do instrumento. Só que eu nunca tinha visto virar uma necessidade como nesse caso. Enfim, um bom e amigo luthier me orçou o serviço em R$150 na época — tava barato pelo trabalho que dá. Mas acabei não fazendo por falta de grana, já tinha pago a regulagem do braço e lixar os trastes a princípio resolveria.

Ameixa e Jack

Ameixa e Jack, brothers in arms!…

Coloquei isso tudo na balança: para eu colocar o violão no ponto para mim ia custar a partir de uns R$400,00 (se eu conseguir aquele captador, naquele preço, se não tiver problema de instalação no corpo de fibra, se for o mesmo luthier). E no final eu não ia conseguir chegar ao timbre que eu quero, com graves mais profundos — isso só com outro violão. Então eu abri mão dele e o coloquei à venda; só com o serviço nos trastes ele volta a ser uma ótima escolha pra muita gente. Vendi mais rápido do que eu esperava até. Parece que o comprador é um camarada que está começando a tocar com o filho, estava procurando um bom violão mais acústico que elétrico e já conhece a marca. Eu deixei claro o que precisa ser feito ainda; aliás, aqui está o anúncio.

Como eu estou quase exclusivamente tocando em guitarras no momento, eu ia usar a grana pra fazer um reparo na minha velha guita Estefânia (que terá o seu post um dia também). Mas acabei descobrindo que não sei viver sem um bom violão — a falta do Ameixa me gerou um pânico absurdo, além do remorso, hehehe… Aí os próximos posts certamente serão reviews sobre violões. Será que eu encontro o violão certo pra mim por aqui mesmo no Rio?… Na verdade, eu achei ele ontem. Mas vou postar o longo caminho que eu percorri.

Pra concluir, isso é o que fica do Ameixa. Quem quiser ouvir uma amostra dele, é só clicar em “Tudo Outra Vez” ou “O Dono do Céu“, que estão aqui no site. E segue também a primeira gravação que eu fiz com ele. Isso foi bem antes de eu ter programa ou habilidade pra isso, errando as letras, “sem a menor pretensão de acontecer”, hehe. Só um garoto e um violão de frente prum microfone de computador…

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