Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Ícone: Gibson SG

Escrito em 17/07/2013 | 0 comentários

Meu sogro, um entusiasta de música como eu e que morava fora, voltou ao Brasil trazendo uma máquina de rock — a Gibson SG. Foi a primeira vez que eu vi e toquei numa guitarra desse quilate.

Já comentei que minha referência musical de berço é MPB: cresci ouvindo Chico Buarque e Osvaldo Montenegro, pra nomear uns bois. Mas é engraçado que, contrariando uma dessas referências, um blues me cai melhor que um tango argentino; o som que realmente me move é baseado nele e no country. Talvez por eu ter entrado em contato com isso quando estava desvendando a língua inglesa, talvez porque estava adolescente e desvendando a mim mesmo, ou talvez por ambos, o fato é que me tocam as letras e o ritmo do blues e em especial as suas afluências. O som que faz meu pé bater no chão e minha cabeça balançar é rock ‘n roll. E uma das pessoas a quem eu sou muito grato por isso é o meu sogro.

“Seu Francisco”, como eu não consigo evitar de chamá-lo. Um camarada que une ação ao pensamento. Geralmente não consigo acompanhar o seu raciocínio. E reservado como é, eu sempre fico sem graça de fazer perguntas bobas. Mas aprendi que na verdade eu nem preciso: ele é um sujeito que se preocupa genuinamente em receber bem, em cuidar dos seus (e entre os “seus” sempre inclui quem ele recebe), e que não deixa ninguém pra trás. Ele é Pedra 90, como não se diz mais hoje — um cara de valor e de confiança. Então eu o sigo sem questionar.

Creedence - só o mais puro e direto rock. Melhor impossível.

Creedence Clearwater Revival – só o mais puro e direto rock. Melhor impossível.

Até conhecer Seu Francisco, meu vocabulário de música internacional se resumia a Beatles, Muddy Waters e Chuck Berry. Ele foi o responsável principal por me apresentar conceitos que hoje são bases da minha concepção sonora ideal, como o valor de um Power Trio e o som de 70. Uma das primeiras coisas que me lembro no começo do meu namoro era de estar no banco de trás da Blazer dele e ouvir pela primeira vez Grand Funk Railroad gritando “People let’s stop the war“, a caminho de um restaurante que eu também não conhecia. Dias depois ele me apresentou o som do Creedence Clearwater Revival, que bateu direto no meu coração — no mesmo dia eu comprei o Chronicle Volume 1. E a primeira vez que eu vi um show do Clapton foi o 24 Nights, e foi no LaserDisc do meu sogro. E tem mais a citar, mas to falando demais. Nem comentei que metade do equipamento que eu uso pra tocar e gravar ou ele trouxe pra mim sob encomenda, ou é dele e está emprestado comigo. Não esqueço, contudo; eu tenho motivo de sobra pra agradecer.

Mas eu estava dizendo que Seu Francisco voltou trazendo a SG, e me chamou pra dar uma olhadinha. Confesso que, como um bom aprendiz metido a sabido, eu tinha um certo preconceito tanto com a “Gibson” quanto a “SG”. Já toquei e gostei de muitas guitarras ditas “semi-pro“: umas Yamahas, algumas Ibanez, várias Epiphones, uma ou outra Squier… Ok, a Gibson é talvez a empresa de instrumentos mais tradicional do mundo, inventora da archtop de jazz, a primeira a vender violões/guitarras elétricas… Mas tradição à parte, nunca entendi o porquê de uma Gibson “padrão” (por exemplo, a Les Paul Standard) custar em torno de 2 a 3 vezes uma de outro fabricante (veja o preço da “guita padrão” da outra maior marca, a Fender). E quanto ao modelo SG, ele é “apenas” uma evolução da Gibson Les Paul que eu citei, sendo que o próprio Les Paul não teria “comprado a idéia” do modelo novo.

Les Paul (falecido em 2009, com 94 anos) com uma Gibson Les Paul

Les Paul (falecido em 2009, com 94 anos) com uma Gibson Les Paul

Um pouco de história: Les Paul foi um guitarrista de jazz e inventor (da gravação multipista, entre outras coisas!), que ajudou a criar o primeiro modelo de guitarra sólida da Gibson — já falei um pouco sobre isso de guitarras sólidas e archtops bem aqui. Ela começou a ser vendida em 52, mas logo no começo dos anos 60 a Les Paul deixou de ser sucesso de vendas e a Gibson então deu uma repaginada (que pra mim era puramente estética) nela; o corpo ganhou um formato com bordas arredondadas, “chifrinhos” simétricos e escudo colado no corpo. O próprio Les Paul não curtiu e pediu pra remover o nome dele do modelo; e então a guitarra, que tinha passado a se chamar Gibson Les Paul SG (de “Solid Guitar”) ficou só SG. Eu, ignorantemente, além de achar a Les Paul mais bonita, achava por bem defender o legado do próprio “dono do modelo”, hehe… Mas aí eu toquei numa ao vivo…

A primeira grande diferença é o braço, ligeiramente mais largo — mas faz toda a diferença. Talvez porque me remeteu diretamente a um braço de violão, o fato é que NUNCA tinha tocado numa guitarra com tanto espaço pra montar acordes e me movimentar — longe de ser “largo demais”, é só puro conforto mesmo pra um cara de mão pequena como eu. A outra maior diferença foi o som (que na verdade só testei mesmo numa segunda olhada): os captadores da Gibson entregam uma CLAREZA que eu nunca tinha ouvido em humbuckers de outras marcas: nada de graves e médios embolados como nas “populares” em geral; pense numa guitarra que você pode ligar direto na caixa, abrir o volume e encher a mão num acorde aberto de Sol. Hoje, depois de também ter mexido na 335 do mestre Aloysio, de ter futucado numas Les Pauls daqui do centro do Rio e até ter testado uma vintage rara de um amigo luthier (uma Gibson Marauder dos anos 70), eu arrisco dizer — essas características são da MARCA Gibson, não são específicas da SG. E realmente são 10 degraus acima de qualquer modelo semi-pro, quem só conhece de fazer pesquisa na net (como eu fazia, aliás) precisa ver de perto pra acreditar.

Gibson SG

Quem é esse sujeito com uma SG na mão?

Quem é esse sujeito com uma SG na mão?

Sobre o modelo em si: acho que, se o Les Paul não curtiu a SG na época, deve ter sido por pura estética mesmo. Porque a “repaginada” tem um pouco a ver com o visual da guitarra, mas na verdade é uma mega-evolução. Pra começar, ela pesa MUITO MENOS do que uma LP comum; quem já tocou, mesmo em similares, sabe do que eu estou falando. Isso influencia no timbre final da guitarra — um corpo mais denso e pesadão traz mais “sustain” (ou seja, faz uma nota soar por mais tempo) enquanto o mais leve dá mais “ataque” (resumindo, dá mais vibração e volume no início de cada palhetada) — mas é detalhe pra especialista. E o contorno arredondado dela se encaixa muito melhor na gente do que o formato “tábua redonda” da LP. Pra completar, o “chifrinho” redesenhado somado ao corpo fino garante acesso fácil até o último traste do braço — sério, até o ÚLTIMO. Com essas características ela atende desde o camarada básico que prioriza bases e acordes abertos “estilo violão” até o virtuoso-fritador que sola em todas as oitavas possíveis. Eu só não me rendi completamente porque ainda acho a LesPaul mais bonitinha… Mas admito: a SG é uma evolução da LP. E é um grande acerto da Gibson.

Pra concluir segue um vídeo da criança em ação. Pensei em algumas boas referências: durante a fase do Cream, o Clapton usou uma SG lendária, toda pintada — pense no som de Sunshine of your love. Pensei também em Frank Zappa. Fiquei principalmente tentado a colocar Black Sabbath —  Tony Iommi é um dos caras que é sinônimo de SG, e é uma guitarra que tem cara de metal pra mim. Mas resolvi ficar no óbvio mesmo: apresento quem, na minha opinião, é o maior “assinante” da SG: Angus Young, do ACDC. Ô som legal…

 

 

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