Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Ícone: Gibson ES-335

Escrito em 08/05/2013 | 0 comentários

Sinto falta do tempo em que a TV estimulava minha imaginação. Eu lembro dos seriados da Sessão Aventura e dos filmes que me fizeram sentir e pensar a vida. Morro de pena da geração atual: a TV hoje é só a realidade fútil dos personagens insossos de reality shows, uma ficção pobre de novela… ou uma comédia leve ou pesada mas raramente instigante. Até Hollywood tá nessa: efeitos especiais cada vez melhores encobrindo uns enredos nada marcantes… Acho que antigamente se pensava que uma boa trama era essencial pra prender a atenção; hoje infelizmente já se sabe que é preciso muito menos que isso…

Eu já li muito, mas sempre fui tarado por ficção televisiva. De tudo que é tipo: científica, fantástica, de aventura, policial, de terror… Eu vi muita Jornada nas Estrelas e Além da Imaginação. Vi tudo do George Lucas. Também vi (e revi) Blade Runner, O Feitiço de Áquila, História sem Fim, Os Goonies, Sociedade dos Poetas Mortos, entre um monte de outros. Acho que sou um fã de boas histórias da televisão. Algumas foram tão importantes que me atrevo a dizer que moldaram um pouco da minha personalidade. Citei umas ali em cima. Mas outra que virou minha cabeça em um monte de coisas foi De Volta para o Futuro.

Meu herói Marty McFly tocando Johnny B. Goode numa Gibson ES-345

Eu podia falar de todas as referências: viagem no tempo + aventura + moral da história + herói legal + continuações… Mas a maior revolução pra mim foi musical; até então, guitarras e rock eram conceitos que eu via e ouvia “a distância segura”, na casa da mamãe. Aí de repente isso entra pela porta da frente, com toda essa “vibe-cool-vintage”. Parando pra pensar hoje, toda a minha busca sonora pessoal se inicia nessa impressão: esse cara, tocando aquela música, com essa guitarra.

E que guitarra bacana. Essa aí é uma Gibson ES-335, o link entre as guitarras pré e pós rock n’ roll. Para os minimalistas: ok, essa aí especificamente é uma ES-345que é nada mais que uma versão “turbinada” da irmã — as diferenças são a ponte com alavanca, um circuito Varitone (outro dia explico o que é) e a decoração do braço. E os cinéfilos vão reclamar que não é “period-correct”: o filme se passa em 55 e esse modelo é de 61… E daí? O importante é ser “soul-correct”!

Então senta, que lá vem a história. Lá pros anos 50, o mundo estava sendo apresentado à guitarra elétrica de corpo sólido.

Buddy-Holly

Buddy Holly, um dos pioneiros do rock, em 1958 (!!!) com a guitarra sólida que se tornaria a mais famosa de todas — uma Fender Stratocaster.

Eu prometo que conto essa história com detalhes em outros posts. Mas resumindo, era um momento de transição entre as archtops ou hollowbodies tradicionais (o que muita gente chama de “guitarra semi-acústica”) para uma nova idéia que estava sendo apresentada principalmente por uma empresa nova (uma tal de Fender) e pela própria Gibson, a já maior empresa no ramo de guitarras elétricas da época. As “semi-acústicas” sofriam de um mal terrível — o corpo oco, exatamente por ser projetado pra ser acústico, absorvia e re-amplificava o som dela mesma que vinha das caixas de som conforme o aumento de volume; é aquele chiado medonho que a gente chama de microfonia ou feedback. As sólidas não sofrem disso. Em compensação, elas têm uma diferença de dinâmica e ataque; pra simplificar o papo, as sólidas “respondem diferente” de uma acústica.

A maioria dos músicos relutava em sair das acústicas, seja pelas diferenças ou por uma questão de tradição visual/sonora mesmo. Aí a Gibson pensou: “e se a gente bolasse um modelo que tivesse o melhor dos mundos? Alguma coisa com o punch e a vibe das hollowbodies, mas com a estabilidade das sólidas?”

Gibson ES-335

 

E assim nasceu a ES-335, e o conceito que chamam de semi-hollow (literalmente, “semi-oca”): ela tem a parte central completamente sólida, apenas com as laterais ocas — Ela não soa desligada, mas isso serve pra acrescentar o “tempero acústico” à captação. E a Gibson acertou em cheio. A guitarra pegou, e se espalhou rapidamente por todos os gêneros. Só o formato dela já foi copiado por outros modelos icônicos. Fala sério; você já viu uma igual a essa na mão de um músico. Quer que eu nomeie alguém? BB King. Chuck Berry. Eric Johnson. Alex Lifeson (do Rush). Não dá pra ficar citando porque é gente demais. Um dia eu vou ter uma dessa… Enquanto isso não acontece, peço de novo pra testar a 335 de um dos meus gurus: mestre Aloysio, deixa eu brincar um pouquinho, rsrsrs….

Pra concluir, segue um videozinho. Não é todo mundo que sabe, mas o cara aí embaixo usou esse modelo por anos…

0 Comentários

Trackbacks/Pingbacks

  1. Violões de corda de aço, parte 3: NÃO é tudo violão folk!!! | Trastejando - […] com a barreira da microfonia (ainda não sabe exatamente o que é? Vivo falando disso, veja aqui e aqui pra…

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: