Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Ícone: Fender Telecaster

Escrito em 09/12/2013 | 0 comentários

Pausa nas reviews de violão. To sem tempo, cheio de trabalho. E já tá chato. Tô precisando espairecer. Vamo mudar de assunto.

Outro dia ouvi falar que a Sessão da Tarde pode sair da grade de programação da Globo. Deu uma sensação ruim, uma tristeza nostálgica. Foi como saber de repente que um velho amigo está muito doente. Me lembrei da primeira vez que o SBT tirou o Chaves da programação. Na minha época não tinha facebook, não tinha nem internet pra se distrair das tarefas chatas — aliás, na minha infância, computador com mouse e tela colorida era luxo… Pensei em quantas vezes eu parei de fazer o dever de casa e fiquei hipnotizado olhando pra TV, vendo aqueles filmes bacanas que só passavam (repetidamente) na Sessão da Tarde. Eu vi Namorada de aluguelCurtindo a vida AdoidadoKarate Kid, Sem Licença para DirigirOs Aventureiros do Bairro Proibido e mais um monte. E me lembrei de um bem legal, que me inspirou a fazer esse post: Uma noite de Aventuras. Não se fazem mais filmes assim; como os nossos adolescentes sonham com emoção hoje?

Uma Noite de AventurasEu curto. Clássica comédia/ação dos anos 80, pura aventura-correria, e ainda tem um guitarrista na parada. A história é de uma babá que, tendo que cuidar de três garotos, precisa resgatar uma amiga na cidade durante a noite. Ela bota todo mundo no carro e sai, mas no meio do caminho o carro dá problema, eles ficam presos, e começa aí. Eles testemunham um tiroteio, entram num carro roubado, fogem dos bandidos… E então no meio da fuga eles entram num bar, daqueles bares sombrios de filme — gente mal encarada, banda no canto, coisa do tipo. E o negão-bandleader-cara-de-mau só deixa eles sairem depois que alguém cantar… Do mesmo jeito que foi com De volta Pro Futuro com o rock, essa foi minha primeira experiência com o blues. Depois disso, eu me lembro de sair comprando um monte de CDs daquelas coleções de blues de banca de jornal — foi quando entrei em contato com Muddy Waters, Buddy Guy, Howlin’ Wolf, BB King, Sonny Boy Williamson… Mas acabei esquecendo esse filme e esse rosto, que acabou sendo uma inspiração secreta: Albert Collins, que faz o papel dele mesmo no filme.

 

A Babá e Albert Collins: "Ninguém passa por aqui sem cantar um blues..."

A Babá e Albert Collins: “Ninguém passa por aqui sem cantar um blues…”

Eu queria falar mais de Collins, mas sei pouco dele. Sei que vinha do sul dos EUA, que foi um nome relativamente importante para o blues, que toca sem palheta e com um estilo muito pessoal, que foi referência pra caras como Stevie Ray Vaughan e que era famoso pelo senso de humor — tem uma história sobre ele descer do palco durante um longo solo, ficando fora dos olhos da platéia por alguns momentos (e o solo rolando…). Aí depois de voltar ao palco, e pouco depois do solo, chega um motoboy pra entregar a pizza que ele havia pedido nesse meio tempo, hehe… Outra coisa que posso dizer de Albert Collins é que ele era chamado de “Master of the Telecaster”, por tocar exclusivamente com esse modelo de guitarra. Segue uma apresentação do cara:

Um som bacana com uma guitarra bacana. A Fender Telecaster não é a guitarra mais famosa nem a mais procurada pelas massas; a garotada em geral olha primeiro pra estrelas como a Les Paul e a Stratocaster, ou para aqueles modelos pontudos de heavy rock… Mas a Tele é guitarra de guitarrista. Um instrumento crucial na história da guitarra elétrica — o primeiro modelo de sucesso com corpo sólido (já comentei sobre a diferença entre guitarras ocas VS sólidas aqui), com um projeto de idéias simples mas revolucionárias: um instrumento leve, menor e mais confortável que as semi-acústicas, pensado pra ser exclusivamente elétrico e com construção modular. É o instrumento que pôs a Fender no mapa, e ao mesmo tempo é a mãe da guitarra elétrica moderna, com os elementos principais das guitarras de hoje em dia.

Fender Telecaster

Era uma vez Leo Fender, um inventor-autodidata que tinha uma loja de eletrônica, a Fender Radio Service, onde ele no início apenas reparava, mas depois também projetava e construía amplificadores e captadores magnéticos pra guitarras. A história começa quando, em 1943, Leo e Doc Kauffman, seu parceiro que entendia de instrumentos musicais, montam uma guitarra rudimentar, com um corpo em madeira sólida, como modelo de teste para os captadores que eles fabricavam pra venda. Ela soava diferente das já conhecidas elétricas semi-acústicas da Gibson, Epiphone e outras; essa tinha um timbre mais claro, brilhante e com mais sustain. E os músicos locais de country que freqüentavam a loja perceberam isso, e começaram a pedir a guitarra emprestada para shows. Então ele resolveu aperfeiçoar o modelo, e em 1950 ela começou a ser vendida com o nome de Fender Esquire (escrito assim mesmo. Quem pensou em Fender Squier, pensou bem; um nome vem do outro, mas são coisas diferentes. Explico outro dia), depois Broadcaster, e finalmente Telecaster. Leo Fender depois ainda faria outras revoluções, como a Stratocaster e o Fender Precision Bass, o primeiro contrabaixo elétrico de sucesso comercial na história. Mas também é história pra outros posts.

É mesmo o projeto de um inventor sobre uma guitarra. Creio que a grande questão, que norteou todas as modificações criadas por Fender, foi a visão de um novo instrumento: uma guitarra exclusivamente elétrica cujo som é formado simplesmente da vibração das cordas de metal “ouvidas” por um captador magnético, ao invés das anteriores que eram produzidas levando-se em consideração os princípios sonoros dos violões e das semi-acústicas, que usam madeiras específicas, caixas de ressonância e etc para gerar amplificação mecânica (ou acústica, pra facilitar). Livre desse paradigma, aparecem grandes idéias como:

  • Um corpo em madeira sólida: Em 1950, já era fato conhecido que a amplificação elétrica com captadores magnéticos simplesmente funcionava melhor com um instrumento que não fosse oco. Um corpo acusticamente sensível como uma guitarra semi-acústica sofre de uma propriedade mecânica chamada ressonância: ela “reverbera” o som que vem dos amplificadores, fazendo as próprias cordas “revibrarem”, o que é “ouvido” e reproduzido pelos captadores dela mesma e cria um ruído incessante que só aumenta de volume — a tal microfonia. Um corpo não-oco simplesmente absorve a vibração sonora e quase não ressoa. Mas nenhum grande fabricante de guitarras havia apostado ainda num modelo com corpo em madeira sólida, talvez por uma questão de tradição.
  • Braço aparafusado ao invés de colado ao corpo — para um violão isso influenciaria no volume e na qualidade do som. Mas Fender provou que isso não era essencial para um instrumento elétrico, e é genial em termos de produção, manutenção e até de reparo, porque simplifica em 10x o processo.
  • Uma ponte vintage de Telecaster

    Uma ponte fixa de cordas, com carrinhos ajustáveis para cada corda (na verdade, para cada par de cordas, mas o próprio Leo Fender aperfeiçoou isso em outra guitarra mais tarde). As semi acústicas até então usavam (e muitas ainda usam) um sistema de “ponte flutuante” como a dos violinos, o que transfere melhor a vibração das cordas para o corpo e favorece a acústica deles, mas requer prática pra configurar — até se acertar o posicionamento, a guitarra NÃO AFINA corretamente.

Um outro detalhe importante é a própria característica sonora da guitarra, que se deve muito aos captadores criados pelo Fender. Os músicos de country até hoje têm a Telecaster como “guitarra principal”, exatamente pelos timbres doces e ao mesmo brilhantes e agudos que se obtém com ela — de fato, ela é muito usada para emular o som de lap steel, um outro tipo de instrumento exclusivo do country. Existe inclusive uma modificação inventada para ajudar nesse tipo específico de som: o b-bender, um dispositivo que eu acho genial. Ao invés de continuar falando sem parar sobre o que é e como ele funciona, aí embaixo está um vídeo explicando a traquitana. E quem não sabe o que é um lap steel, saberá pelo menos como ele soa:

Fala sério, isso é muito legal. E esse camarada aí do vídeo é outro Albert e que também tem a ver com Telecasters: Albert Lee, já chamado também de Mr. Telecaster, é um guitarrista inglês que toca principalmente country, rockabilly e afluências. Ele já tocou com muita gente famosa, e também já foi chamado de “guitarrista dos guitarristas” por causa da quantidade de músicos que vai aos shows dele. Na verdade esse é um cara que merece um post à parte. Mas vou finalizar esse texto com um exemplo dele com uma Telecaster, tocando seu maior sucesso. O áudio não está 100%, é uma gravação antiga. Mas vale só pra reparar num jovem Eric Clapton sentado na platéia…

E essa semana ainda volto pra odisséia do violão certo pra mim… Obrigado pela paciência de chegar até o fim deste texto longo! Citando um dos personagens do Chico Anysio, “saúdo aos que me escutaram… e agradeço aos que me ouviram.”

 

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