Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Crônica: Milagre

Escrito em 11/10/2013 | 4 comentários

(Publicado em 07 de agosto de 2005, no defunto pormimtantofaz.blogspot)

Nunca tive boa memória, e naquela época eu era ainda muito novo. Mas bem depois, lá pelos quinze anos, enquanto eu remexia as fotos e anotações antigas de família, meus pais me contaram sobre como eu vim parar nesse mundo. Eu fui a quinta gestação da mamãe. Um feto parcialmente inesperado e totalmente desacreditado, após três abortos espontâneos e a Renata, de 1975, um parto prematuro, de sete meses, seguido de pneumonia e morte com um mês de vida. Mas, contrariando a fatídica tradição dos meus irmãos, a preguiça me impedia de me agitar no calorzinho gostoso do útero de mamãe e assim eu fiquei, agarradinho lá até o dia do tapinha. Eu acabei sabendo dessa história quando encontrei um escrito da mamãe entre as lembranças de família e fiquei curioso (como eu falava ali em cima). Dizia mais ou menos assim:

“O milagre é dar vida. Hoje, 15 de março de 1980, o milagre foi feito por nós e o chamamos de Pablo.”

FerroramaLegal, hein? Coisas de mamãe. Meu saudoso pai, sendo meu espelho, provavelmente sentiu a mesma coisa que ela, mas quando me olhou deve ter falado apenas alguma gracinha como “que coisinha feia e enrugada”.

Hoje, mais uma vez, lembro as palavras da mamãe. Como lembrei quando nasceu o meu milagre. O milagre é dar vida. Hoje, o milagre estava gripado e febril. Mesmo assim foi a festa, comeu, bebeu, correu e brincou. Quando chegou em casa, o milagre vomitou no próprio pijama, na minha cama e na minha esposa. Enquanto eu limpava a roupa de cama e os pijamas dele e da esposa, eu lembrei que quando meu filho nasceu, me vieram na cabeça as palavras da mamãe e pensei “um milagre que se caga e chora, meu deus, que horror!”. E lembrei que eu tenho o maior Ferrorama da Estrela, o XP-1500, guardado com todo cuidado e sem faltar nenhuma peça; mas um dia eu deixei o trenzinho cair e o motor quebrou. E pensei em como são frágeis as coisas preciosas que possuímos. E aí vim correndo postar aqui, pra dividir isso com alguém.

Falando em dividir, alguém pode levar meu milagre no médico hoje de manhã? Eu vou precisar tirar o atraso do sono…

4 Comentários

  1. Ri demais com esse texto lindo, amigo! Hahahahaha! Não sei se quero um milagre desses, que faz caquinha toda hora na fralda, chora, atrasa o sono….(risos) tô pensando sobre o assunto. Até porque se fosse só isso, tava bom. O resto é que de fato ainda me assusta: responsabilidade pela vida toda (que dramática! risos). Adorei o texto. Escreva mais, escreva sempre. Beijos.

    • É pois é… responsabilidade pelo resto da vida não é drama não, é beeem por aí, hehe… Pense q você nunca mais vai dormir direito. Quando ele parar de acordar no meio da noite pra mamar e trocar fralda vem uma fase interminável de brigas pra ficar “acordado até mais tarde”… e depois vem a fase da noite na balada… Mas sempre tem uma recompensa, quando ele vem e faz um sanduíche surpresa pra gente sem ninguém pedir…

      Beijo, mana. Saudades.

  2. Olá Pablo,

    tudo beleza? Depois de um tempinho, passo novamente por aqui e tenho a grata surpresa do seu texto autobiográfico. Gosto das histórias de infância. Escrevo algumas também lá pelo meu blog.

    Muito bacana essas lembranças que nos são caras serem divididas com os amigos. Certas memórias servem para lembrarmos o quanto somos importantes nessa engrenagem toda que é a vida. Poder reconhecer esse mesmo milagre que se é no filho que se tem é a confirmação desse mesmo milagre.

    Parabéns pelo belo texto!

    Chico

    • Camaradinha Assis, quanto tempo… Também to devendo um pulo no seu blog, sabe como é… É a engrenagem, como você disse. Ocupa tanto a nossa mente que até um clique às vezes vira uma distância intransponível… Mas valeu a visita. Deixa uma no congelador que eu vou passar lá de volta pra bater um papo, hehehe…

      Forte abraço!

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