Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Crônica: Meu amigo Pedro

Escrito em 01/03/2014 | 7 comentários

“Pedro, onde cê vai eu também vou.”
(Meu amigo Pedro — Raul Seixas)
 

Eu tenho a sorte de ter alguns bons amigos. Não são muitos. Nem tem que ser. BONS camaradas sempre valem mais do que “muitos”. Mas todos são gente que vale a pena ter do lado. E por mais distantes que estejam (ou que eu esteja), nunca deixam de estar próximos. Mesmo que a distância seja um oceano. Mesmo que sejam anos de distante silêncio. Porque (juro pra vocês) esse negócio de amizade de verdade tem alguma coisa de mágica, de além do que o olho capta. Um amigo sincero não tem prazo de validade, nem tem área de cobertura — aquele bom camarada, se a amizade valeu, há de continuar a ser o mesmo bom camarada depois de 10 anos de distância relativa ou absoluta; se o vínculo é verdadeiro ele não se desfaz.

raulemarcelo

Os amigos Raulzito e Marceleza
(ou Raul Seixas e Marcelo Nova)

Às vezes (muitas vezes) a vida trata de nos anestesiar, nublando nossos olhos e tapando nossos ouvidos com mais coisas pequenas do que podemos lidar. Nos entope de tarefas de fim de semana e trabalhos urgentes pra amanhã de manhã enquanto cria gradativamente a distância. A gente sabiamente bota a culpa nela, e burramente perdoa a si mesmo por isso. É assim no geral. Mas se tem uma coisa que eu aprendi com a vida, é que “anestesia” é um conforto que nem sempre tá disponível.

Eu tenho um amigo chamado Pedro Musse. Nós, amigos de colégio, o chamamos de Pudim. Pudim é um desses bons amigos que eu falei ali em cima. Existem grandes camaradas — eu tenho pelo menos um — que são completamente diferentes de nós no modo de agir ou pensar (eu diria complementares a nós, rsrsrs… e eles também são muito necessários); mas não é o caso deste. Pudim é meu irmão espiritual. É um grande amigo que compartilha das minhas visões de mundo e das minhas utopias. E que sente a vida e a música como sinto; penso eu, ao menos. Talvez por isso ele seja o meu maior parceiro de viola.

IrmãosNas idas e vindas dos meus caminhos, fiz música com desconhecidos, com camaradas e com mestres. Dos amigos de violão, Pudim é o cara que me leva mais próximo da música que meus pais e meus gurus me deram e que é a música que me criou. Fazer um som com ele é estar de volta ao meu berço: é voltar ao sítio do Tio Jô, no canto da roda de viola com ele e tia Fátima, Nelson, meus pais e, com sorte, até o meu guru-maior de violão, o Zanon. Já estive com perfeccionistas e magos deste e de outros instrumentos. Demorei um pouquinho, mas aprendi que a minha música não tem nada a ver com isso. O que eu quero é só o que se sente e se celebra. Eu quero o som que é feito ali na hora, e que se ensaia o mínimo possível pra não se mecanizar; eu quero a música como ela me toca — pra mim é a que se traduz em amor, simplesmente. Além dos gurus que eu citei ali em cima, pouca gente já compartilhou essa Música comigo — hoje eu encontrei a PocketBug que me traz isso; mas com o Pudim, ambos temos a alegria e a consciência de estar buscando a MESMA COISA, e temos a mesma vontade de encontrar. Somos dois irmãos montando o mesmo castelo. To sendo parcial, mas acho que é pra esses casos que a vida podia usar aquela anestesia.

Pablo e Pudim

Pudim e eu, lá no Point Jovem II…

Eu sei, to soando meio dramático. Não é nenhuma tragédia. É aquele famoso senso de humor do acaso: surge uma boa oportunidade, uma possibilidade de carreira, um futuro promissor pra si mesmo e pros seus. E de quebra ela aparece bem na hora que não dá pra negar. De ônus, só isso: viajar pra longe por um bom tempo, e talvez só voltar pra visitar. O duro é explicar, sem anestesia, pro coração de quem vai e quem fica que não vale ficar triste porque essa é a melhor opção pro amigo.

É isso, leitor camarada. Meu amigo Pedro está de malas prontas para a Noruega, pra uma proposta de emprego que veio em boa hora. Oportunidade de experiência profissional internacional, de vida num lugar mais civilizado, de futuro melhor pra filhota… Eu já to torcendo pra tudo dar certo lá pra ele. Mas também já estou sentindo de uma vez toda a falta que ele vai fazer. Resta manter o contato e esperar a volta. E curtir um monte de boas histórias e lembranças. Como eu falei lá em cima: o vínculo fica. Onde cê vai eu também vou, camarada.

Segue abaixo o último som que fizemos juntos. Quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014. No Point Jovem II, onde eu sempre toco.

7 Comentários

  1. Amizade e música são isso, amo.
    É sentimento o resto, bem, é o resto.
    Só quem já chorou tocando de alma com um amigo, que viu um sorriso nós olhos no momento em que a nota em um solo encaixa com o coração, e deu gargalhadas por lembrar juntos de toda aquela letra, sabe que esses laços não se desfazem. Nos restam a viola e as canções e lembrar e saber de como seria voz a batida a nota um do outro nessa ou naquela música. Você é quem vai comigo? Porque não tem nada não, tenho meu violão … e com ele hei sempre de lembrar de ti.
    Já já tô de volta …

  2. Sempre dói ver um amigo partir…
    Mas com certeza dói muito mais ver vários deles ficarem…
    Boa sorte para o Pedro e força para você amiguinho!

  3. “Todos os caminhos são iguais
    O que leva à glória ou à perdição
    Há tantos caminhos, tantas volta
    É pena que você não sabe não…

    …mas tudo acaba onde começou”

  4. Ai, que saudade da nossa adolescência com essa Don’t look back in anger!!! 🙂

  5. Arrasou Pablo! Lindas palavras!

  6. Olá Pablo, tudo beleza?

    Passo por aqui depois de um tempo um pouco afastado da rede e vejo esse post mais que especial. Tratar da amizade sincera é sempre necessário e relevante. Parabéns pelas palavras fraternas em relação aos amigos e, principalmente ao Pedro nosso amigo querido. Isso me faz lembrar da música do Milton, ‘Encontros e despedidas” na qual fala de dores e alegrias na plataforma da (vida) estação: “O trem que chega é o mesmo trem da partida”. Esses constantes movimentos são o que tornam nossas histórias cada vez mais ricas.

    Abraços a ti e ao Pedro.

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