Trastejando

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior.

Crônica: I’ll Follow the Sun

Escrito em 30/09/2013 | 0 comentários

(Este texto foi postado originalmente num antigo blog, chamado “pormimtantofaz”, que mantive com dois grandes amigos. O blog faleceu, e então essa e outras mini-crônicas ficaram lá abandonadas. Resolvi trazer as que não me envergonham pra cá. E aproveitei pra gravar um mini take dessa mini-música… Leia o texto pra entender por que eu coloquei ela aqui…

Publicado em 07 de agosto de 2005, no defunto pormimtantofaz.blogspot)

Ela precisou olhar duas vezes para reconhecê-lo. “Ele está um charme mais velho”, pensou. Então ele foi parar ali, tão longe. Dono de restaurante no interior, que bacana. Será que ele veio pra cá depois que…

— Eliana! Meu deus do céu, quanto tempo. Veio passar férias, moça? — Antes que ela pudesse se sentar, Júlio a abraçou com sincera saudade. Eliana sorriu embaraçada.

— Vem, essa mesa é sua. Sente-se. Serginho, traga dois chopp’s por favor. E termine de fechar o caixa pra mim. — O rapaz atendeu, quase contrariado. Só então ela percebeu que o restaurante estava fechando.

— Não se preocupe, nem pense em ir embora agora. — Júlio respondeu aos olhares dela. — Vamos conversar um pouco. Nove anos de distância merecem pelo menos um chopinho.

O restauranteJúlio se esforçara em quebrar o gelo, e o papo acabou engrenando. Ela estava apenas passando o fim de semana, queria conhecer o lugar para seu trabalho — organizar excursões de lazer. Ele veio a convite de um tio, que tinha um sítio próximo e acabou se apaixonando pela vila. Eliana se uniu a uma colega da turma de administração e começaram o negócio de excursões. Júlio, com a ajuda do tio, abriu um bar que cresceu graças ao seu hobby — a cantoria do sábado à noite, tradição no vilarejo. Sim, ele veio menos de três meses depois do fim do namoro.

— Eu precisava mudar os ares. — Sorriu. — E o André?

Eliana disfarçou o novo embaraço com o último gole do chopp. Sorriu o mais naturalmente que pôde. Afinal, ela havia aberto o assunto. Será que ele ainda guardava a mágoa?

— Nós terminamos em dois meses. Ele era muito diferente do que eu esperava.

O papo continuou, mas o assunto ficou inacabado, ambos sentiram. Quando Júlio terminou seu copo, sorriram o mesmo sorriso nostálgico. Eliana olhou para ele e pensou em contar-lhe que ninguém mais cantou para ela. Ninguém mais assistiu com ela suas séries favoritas. Ninguém mais foi tão atencioso com ela como Júlio.

— A gente se dava tão bem, né, Júlio? — Ele meneou a cabeça, olhando o chão. Era um sim ou um não? Houve alguns segundos de silêncio. Se fitaram, e logo depois desviaram o olhar.

— Júlio, você se lembra da última música que tocou pra mim?
— Lembro. Beatles. Foi para me despedir. — Sorriu debilmente. — Você lembra?
— Eu lembro. Era linda. Pena que eu não sei inglês, queria…
— Espera um pouco. — Júlio levantou a mão, pegou uma caneta no bolso e se debruçou sobre um guardanapo.

Eliana o observava. Quis levantar e beijá-lo, dizer que sentia muito, que devia ter cuidado dele, que o queria de volta em sua vida. Olhou a tulipa vazia e sentiu-se desamparada. Respirou fundo e se levantou, na direção dele. Júlio também se ergueu, pouco depois. Ela se aproximou e ele a abraçou carinhosamente. Ficou em dúvida se ele estava evitando o beijo deliberadamente ou se não entendeu sua intenção. Ele segurou suas mãos suadas e beijou-lhe o rosto.

— Pena que você chegou tão tarde. Mas eu também preciso ir. Amanhã entro de férias. Minha esposa e eu vamos viajar. Me deixa seu telefone, eu ligo pra você. Eu te levo até o carro. Serginho, feche a casa pra mim, depois a gente acerta.

Na porta da pousada, antes de entrar, Eliana lembrou do guardanapo que Júlio pôs em sua mão. Demorou um pouco para achá-lo. Desdobrou.

“A maioria das estrelas que estou vendo agora já estão mortas”, ela olhou o céu enquanto pensava na aula de física do pré-vestibular, “enquanto as novas e brilhantes estão distantes e sua luz ainda não chegou aqui.” Seus olhos estavam úmidos. Decidida, cerrou os dentes. Caminhou para a pousada, disposta a refazer as malas e começar uma viagem nova e maior. E só parou para reler a letra no guardanapo:

Eu vou seguir o sol
(Lennon/McCartney)

“Um dia você vai olhar
e ver que eu terei ido
Amanhã deve chover,
e então eu vou seguir o sol

Algum dia você vai saber
que eu era o cara certo
Mas amanhã deve chover,
e então eu vou seguir o sol

E já é hora, e então, meu amor, eu preciso ir
E apesar de perder uma amiga, no fim você vai saber

Um dia você vai descobrir
que eu terei ido embora
Amanhã deve chover,
E então eu vou seguir o sol.”

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